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Ruínas de uma antiga casa de xisto, nos Passadiços da Serra d'Ossa


Lenda "A moura encantada"

Na Serra d’Ossa, quando o verão abranda e a terra respira ao cair da tarde, há um silêncio que não é vazio. É um silêncio antigo, guardado entre penedos e raízes profundas, como se a serra tivesse memória — e soubesse esperar.

Foi nesse tempo suspenso que um homem, vindo dos campos baixos, subiu por um caminho esquecido. Não procurava nada em especial, dizia ele. Apenas sombra, talvez água. Mas a serra raramente aceita visitas sem intenção, mesmo quando a intenção não é dita.

O caminho levou-o a uma fonte escondida. A água nascia fina, quase tímida, escorrendo entre pedras gastas pelo tempo. Ali, sentada como se sempre ali tivesse estado, estava ela. Não era luz nem sombra. Não era sonho nem vigília. Penteava os cabelos longos com um pente de ouro baço, não brilhante, mas antigo, como se tivesse aprendido a não chamar atenção. O rosto era sereno, sem idade. Quando levantou os olhos, não houve surpresa, apenas reconhecimento, como se soubesse que aquele encontro estava escrito muito antes do primeiro passo do homem.

Chegaste tarde, disse ela, com voz de água calma.

O homem quis responder, mas as palavras ficaram presas. Nunca lhe tinham ensinado o que dizer a alguém que parecia pertencer mais ao lugar do que ao mundo.

Guarda-me isto, continuou a moura, estendendo o pente. Só até o sol tocar naquela pedra.

Apontou um penedo alto, onde a luz já se inclinava.

O homem sentiu o peso do objeto na mão. Não era pesado, mas era denso, como se carregasse histórias que não eram suas. O tempo pareceu abrandar. Ou talvez fosse o coração dele. A água corria. A serra observava.

Passou-lhe pela mente tudo o que ouvira em criança: histórias de encantamentos, de aparições, de perigos. Pensou em riquezas. Pensou em castigos. Pensou em sinais da cruz e em orações mal lembradas. E pensou, sobretudo, no medo — não o medo da moura, mas o medo de errar.

Quando a luz tocou a pedra, um pássaro levantou voo. O homem apertou o pente com força. Quis perguntar. Quis confirmar. Quis garantir que estava a fazer o certo. Foi esse instante que o perdeu. A moura levantou-se devagar. Não houve fumo nem trovão. Apenas um sopro, como vento leve entre folhas.

Ainda não, disse ela, com uma tristeza sem amargura. E desapareceu.

O pente transformou-se em pó fino, misturando-se com a terra. A fonte continuou a correr, igual a si mesma. O silêncio voltou a ocupar o lugar.

O homem desceu a serra ao anoitecer, sem riquezas, sem castigos visíveis. Mas nunca mais conseguiu passar por um lugar sem sentir que estava a ser avaliado, não por alguém, mas pela própria terra.

Dizem que a moura continua ali. Não à espera de ser libertada, mas à espera de quem saiba estar sem exigir, guardar sem possuir, confiar sem perguntar. E por isso a serra permanece encantada. Não por magia. Mas porque ainda não chegou quem saiba escutar até ao fim.

 

 

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